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Sobre cotidiano e vazios

Ela chegou em casa numa sexta a noite. Era uma sexta feira vulgar, nada havia de diferente entre essa e todas as outras sexta-feiras anteriores, não havia nada de extraordinário. Porém havia algo estranho dentro dela. Ela sentia um vazio inexplicável. Era como se de repente sua vida não fizesse mais sentido, como se de repente todos seus sonhos, esperanças e felicidade tivessem saído ao mesmo tempo do seu corpo.

Não conseguia entender de onde vinha esse sentimento, de onde vinha essa falta de qualquer coisa que ela não conseguia identificar. Refez mentalmente o seu dia, para ver se descobria a razão de estar se sentindo assim.

Acordou. Tomou seu banho. Foi pro trabalho. Seu trabalho continuava tão entendiante como sempre. Sua mãe ligou e reclamou da vida. Suas amigas ligaram e a convidaram pra jantar. Seu namorado ligou para lembrar do casamento que iriam no dia seguinte. Saiu do trabalho mais cedo, porque tinha adiantado suas tarefas. Chegou em casa.

Não fora nada que tivesse acontecido no seu dia que a fez ficar assim. Na ânsia de conseguir dar um significado para o que estava sentindo, pensou na sua vida, Já fazia um tempo que não pensava na própria vida. A vida ia acontecendo e ela apenas vivia, sem se preocupar em achar razões e porquês e significados inconscientes de suas ações.

A vida ia bem. Tinha um trabalho entediante, mas estava cercada por pessoas legais e ganhava seu sustento. Havia enfim ido morar sozinha e o fato de poder se sustentar lhe dava um imenso prazer. Ela finalmente tinha seu espaço, sua bagunça e seu gato. E também tinha que lavar a louça , arrumar a cama e pagar suas contas. Mas não era isso que a estava fazendo se sentir desse jeito.

As coisas com sua família também iam bem, ela e sua mãe estavam conseguindo se relacionar melhor, agora que ela saiu de casa e elas não precisavam mais se encontrar diariamente. Só se encontravam quando elas queriam. Ao tirarem a obrigação do relacionamento, só se viam para passar momentos agradáveis juntos. A relação com seu pai continuava da mesma forma que sempre foi, desde que ela podia se lembrar. Ela era a princesa dele e ele fazia todas suas vontades. Nada mudou.

Mesmo com tudo dando certo em sua vida, aquele vazio foi dominando ela. E de repente escutou um barulho, e esse barulho, diferente do vazio lhe era familiar. Era seu estômago e ele estava roncando. E então percebeu: estava com fome. Foi até a geladeira e fez um sanduíche.

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